o primeiro mês de saudade ♥

3 de setembro de 2019


E agora não te tenho
Só te lembro

Quando escrevi este texto, não acreditava ser possível que o destino me pregasse esta partida. Não tornava possível o desfecho que esta luta teve. Não colocava em cima da mesa a opção de que ele ganhasse. Havíamos vencido batalhas. Umas mais fáceis e outras mais duras. Havíamos renascido. Tu e a nossa família. Havíamos reescrito uma história e aprender a viver tendo o teu nome como porto-seguro: a esperança.

Em Agosto do ano passado fomos a locais que te eram próximos agradecer. Subimos aos nossos montes e prometemos lá regressar. Viste-me partir em busca de um mestrado com um orgulho de mãe que por vezes me escapou. Vivemos um Natal como há anos não tínhamos. Juntamos a família, viste o sorriso e a surpresa nos olhos da tua neta quando acreditou que o Pai Natal lhe havia deixado os presentes. Sorrias com a serenidade de quem estava de coração cheio, mas possivelmente com o olhar vazio de quem pressentia que seria a última vez. Por ironia da vida, depois de anos seguidos a passar a passagem de ano convosco, entrei em 2019 longe de vocês e ao lado daquela a quem pediste que me protegesse. Assististe ao baptismo da tua neta como tanto querias e levaste no teu coração a certeza de que serei a melhor madrinha possível. Estiveste presente nos seus três anos e celebramos, em família, a entrada nos quarenta do teu primeiro filho. Em tom de brincadeira disse-te que a próxima festa seriam os meus trinta. Prometeste-me que, se estivesses cá, assim seria...

Passei mais de três meses longe de ti e o arrependimento de não ter cá estado estará para sempre no meu coração. Até ao dia em que o telefone tocou e a quilómetros de distância soube que era hora de regressar. O mais cedo possível. 

No dia 1 de Agosto entrei em casa, naquela manhã e reconheceste-me. Sabias que era eu. Abraçaste-me. Mas, com muita dor percebi que já não eras mais tu. Faltava algo naquele abraço. A tua alma. Esperaste por mim e deixaste-me saborear aquela tarde em que te juntaste à família pela última vez. Despediste-te de quem querias. Disseste Adeus a todos que te eram próximos. E eu despedi-me de ti um dia depois. Naquela cama de hospital, na qual acredito que pensavas que era a tua. Julgavas ouvir a tua neta pelos corredores quando na verdade eram as enfermeiras. Adormeceste a achar que estavas abrigada pelo meu edredon que é o mais quente e fofo. Fui a última pessoa a dar-te um beijo e disse-te que podias partir. Que a dor seria imensa, mas que ver-te assim doía ainda mais. Sussurrei-te que se visses a tua outra filha que te deixasses ir. Ela deu-me a sorte de te ter durante vinte e sete anos e talvez agora fosse a vez dela de te ter. Saí a saber que aquele era o último beijo mas guardei-o para mim...

Até àquele telefonema das oito horas de Sábado. Ainda hoje sou capaz de dizer todas as palavras que do outro lado nos disseram. Penso muito naqueles dois dias e não me esqueci de nada. Sei tudo o que aconteceu, os passos que demos, as lágrimas que deixei cair, os braços que me ampararam, da dor que me invadiu e de como senti, em dois momentos, uma paz como há muito não sentia. Desde aí tudo é vago... só uma saudade imensa e uma dor constante. Não voltei a sentir essa paz e não consigo ainda procurá-la. Partiste há um mês e vivo como se se tivessem passado anos. Há um mês perdeste a luta contra o cancro. Levaste-o contigo, mas não assumo que desististe. Nunca o fizeste. Para mim, pensaste uma vez mais em nós e percebeste que a luta iria ser ainda mais dura e escolheste tentar dar-nos um futuro com paz. Preparaste tudo para que não ficássemos tão sós e escolheste tu, partir. Mas não foi egoísmo, foi amor. O mesmo amor que te moveu ao longo de toda a vida e que nunca esquecerei. Eu e todos aqueles que amaste... 

Se tudo o que me dizem é verdade, apazigua saber que, afinal, há trinta e um dias que estás sempre ao meu lado. Que és o vento que me arrepia, a onda que me fez cair ao mar, o sol que me abraça, a borboleta que voa e que, neste momento, estás aqui a olhar-me com um sorriso meigo. Passou-se um mês sem ti. O primeiro de todos aqueles com que terei que viver ao longo da minha vida... fazes-me falta ♥

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