O balanço de um ano de experiência

4 de setembro de 2018


Se já foi difícil encontrar um título para este post, nem quero imaginar o quão difícil vai ser escrevê-lo. Colocar em palavras um ano de vida? O ano que me alterou a vida por completo? O ano mais feliz destes vinte e seis anos de existência? Mas vá, tentemos voltar atrás no tempo e deixar aqui o relato de uma experiência que foi tão gratificante. Porque, na verdade, de outra forma não podia ser...
Foi há exactamente um ano atrás que entrei naquele TGV, sozinha e em Paris, com destino a Poitiers. Com uma mala de mais de vinte quilos que tentava arrastar e que consegui arrumar com a ajuda do casal de idosos que depressa me deu a mão. Sentei-me no meu lugar e aquela hora e quarenta minutos teimaram a ser longas quando a cabeça tentava manter o foco e o coração batia depressa demais por saber que era ali que tudo começava! Estava definitivamente sozinha a percorrer um caminho que nem eu sabia muito bem como, nem quando, ia terminar. Mas, no momento em que cheguei ao destino, vi o rosto que me era familiar daquela entrevista skype e um sorriso que me deu a tranquilidade que precisava. Pisei o chão daquela terra pela primeira vez e, por muito estranho que possa soar, senti-me instintivamente em casa. Olhei com atenção para os pormenores daquelas ruas que percorremos na esperança de as registar na memória e senti que pertencia ali. Entrei naquele que viria a ser o meu quarto ao longo dos doze meses seguintes e sorri. Ali era a minha nova vida. Ali era a minha nova casa. E, ali só faltava conhecer os meus novos vizinhos...

A primeira semana foi de intensa descoberta. Tentando conhecer mais e melhor aqueles que vieram a ser a minha família de lá. Entre apresentações e informações que nos eram dadas, aqueles primeiros tempos foram intensos. Se, por vezes, me sentia um pouco perdida, depressa percebia que, qualquer que fosse o lado para onde me virasse, tinha pessoas para me orientarem. Demorei a dar o melhor de mim aos outros, mas assim que o fiz, depressa criei laços que sei que serão para a vida. Criamos a nossa família por entre as partilhas que íamos fazendo aquando dos jantares. Cozinhávamos, conversávamos e ríamos juntos. Os abraços começaram a sair naturalmente, tal como um pai abraça um filho. Ali, tínhamos um papel na vida de cada um. E, quando se está longe dos nossos, aqueles abraços sabem-nos pela vida!







Não fomos os melhores amigos uns dos outros! Mas, nunca foi esse o objectivo. Tal como numa família não gostamos de todos por igual... Mas, por entre os feitios bastante diferentes, conseguimos sempre ser educados, respeitosos e amigos. Preocupámo-nos sempre em saber como estava a vida de cada um, em ajudar quando necessário e em celebrar as vitórias conjuntas. Estar longe de casa é (mais) fácil quando encontramos um local ao qual podemos chamar de casa! E, aquela residência e aquele andar foi isso mesmo: a nossa casa em França!

Orgulho-me muito das relações que criei. Dos amigos que fiz e dos momentos felizes que vivi ali. Entre as asneiras que íamos cometendo, as gargalhadas que íamos fazendo ecoar no corredor, as festas que teimamos em fazer - mesmo que proibidas. As partidas que por vezes fazíamos. Os almoços de Domingo em que cozinhávamos juntos. As conversas que duravam até de madrugada naquela cozinha.







Mas, tendo a sorte de depressa ter encontrado um lar, o meu trabalho passou também ele a ser um dos meus locais favoritos! Foi lá que encontrei pessoas que me quiseram sempre o bem de uma forma tão genuína. Aquele sorriso que me deu a tranquilidade que precisei aquando da minha chegada foi o mesmo que recebi dia-após-dia. Foi a tutora que me deu sempre a liberdade de trabalho que a minha auto gestão tanto precisa. O meu escritório foi ponto de muito trabalho e de muita diversão. Entre os dias em que havia tanta coisa a ser feita e as tardes de Sexta-feira em que as músicas dos anos 2000 voltavam a ser ouvidas só para que recordássemos o "quão velhas já estamos". As conversas sobre tudo e nada, as gargalhadas que eram uma constante e aquela janela que me cativou desde o primeiro dia.




Na minha missão de voluntariado aprendi muito mais do que aquilo que eu própria poderia imaginar. Cresci e tornei-me melhor adulta! Aprendi a ver o mundo de uma outra forma. Percebi que devemos ser mais tolerantes com os outros; que a calma e a serenidade deveriam ser armas de paz a adquirir cada vez mais na vida; que os outros não são - somente - aquilo que vemos, mas muito mais do que isso; que o julgamento não é feito no primeiro momento por, em muitas situações, estarmos a errar; que trabalhar para e com os jovens é algo tão gratificante (...) Porque, aquele sorriso do jovem ou da sua família por saberem que encontraram uma solução ou um caminho era o melhor pagamento que podíamos receber. Porque, rever um jovem que nos ouviu falar há meses mas que, só depois de todo aquele tempo, decidiu vir procurar mais informação, é gratificante. Porque, ter "dois dedos de conversa" com o jovem que está perdido é muito mais importante para ele, mas é muito mais valorizante para nós. Fui imensamente feliz no meu trabalho! Trabalhei sempre de sorriso no rosto, sem me aperceber disso. Tentei dar sempre o meu melhor lado aos outros e os obrigados que fui recebendo ao longo do tempo aqueciam-me a alma e o coração. Senti, dia-após-dia, que estava a fazer o correcto, no momento certo. Durante os dez meses em que trabalhei, acordei sempre com a certeza de que, ao final do dia, havia algo que me tinha marcado. Porque tive a sorte de isso me acontecer: de haver um momento, uma pessoa ou uma palavra que iria continuar a dar-me a certeza de que tudo estava a valer a pena! E, isso... admito que devem ser poucas as pessoas que têm a sorte de sentir nas suas vidas.



E no instante em que o meu voluntariado ficou marcado pelo momento mais difícil - até hoje - da minha vida, soube no momento exacto em que partilhei a notícia que tinha ao meu lado pessoas (ainda) mais fantásticas ! Porque, as palavras no momento certo, a preocupação, os abraços e a forma como viviam aquilo comigo é algo que nunca esquecerei. Se já sabia que cada uma delas fazia parte da minha família de lá, nesse momento tive a certeza de que era uma família de laços muito fortes que existiria para sempre. Sofreram, tal como eu, com as notícias tão vazias que me iam chegando e sentiram o mesmo alívio que eu aquando das vitórias em cada uma das batalhas. Foram a minha base de protecção e de amor no momento em que eu mais precisei e sentir isso na pele é impagável! Agradeço - ainda hoje - por ter encontrado pessoas tão boas durante este ano e por tê-las a todas na minha vida ! Porque, no dia em que dissemos o "até já" de um mês de férias, mas o "acabou" de voluntariado, vi as lágrimas caírem por me verem ir! E isso é amor. Tenho a sorte de ser muito amor!




São tantas as boas memórias que guardo deste ano de voluntariado! São tantas as certezas que trouxe comigo! São tantas as histórias que criaram o livro do mais belo ano da minha vida. Porque, cada pedra no caminho foi o concretizar de mais uma vitória. Porque os receios que levei na mala transformaram-se em amor que já nem cabem nela. Porque em momento algum me arrependi da escolha que tinha feito. Porque não houve um único dia em que desejasse abandonar tudo e voltar. O meu voluntariado foi a volta de 360º da minha vida! Foi o início de um caminho que descobri querer percorrer e que me levará ao resto da minha vida. Trouxe dele mais do aquilo que pude deixar meu. Trouxe amigos que se transformaram família, aprendizagens que me consolidaram conhecimentos, certezas que eram dúvidas, momentos que me mudaram e um conhecimento sobre mim própria que nunca tinha tido.

Por isso, por muito que até me continue a parecer tão pouco o que escrevi sobre esta aventura de um ano, só posso agradecer. Agradecer ao Universo por ter estado do meu lado e me ter dado a sorte de viver esta experiência. Agradecer aos melhores amigos que descobri lá e que fazem parte da minha vida para sempre: Chiara, Louisa e Andrés. Agradecer às melhores colegas de trabalho que depressa se tornaram em irmãs: Annalisa, Camille, Anne e Lucia. Agradecer à melhor família que podia ter encontrado na residência: Vale, Clara, Ieva e Andrea. Agradecer aos amigos que fui criando na minha vida, às pessoas com quem me cruzei e que de alguma forma me marcaram. Agradecer aos jovens que me ouviram falar e que sei que, em alguns deles, semeei alguma coisa. Agradecer a Poitiers por me ter feito sentir em casa desde o primeiro momento. Agradecer à melhor associação do mundo que me enviou depositando em mim a confiança de que seria capaz. Obrigada Diana e Helder!

E, por fim, agradecer aos meus: à minha família de sangue e às minhas melhores amigas e fiéis companheiras de cá por me terem sempre apoiado na decisão de partir e por me terem deixado voar para aquele quatro de setembro de dois mil e dezassete. Afinal, mal sabíamos nós que aquele era o primeiro dia do resto da minha vida

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